terça-feira, 21 de setembro de 2010
maldição da pata
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Dissolução
Eu me arranjaria com um vestido florido. No fundo do armário, ele estava. No mesmo lugar, um estojo de maquiagem. Sentei de frente para o espelho da penteadeira. Olhos castanhos, esverdeados. Nariz pontudo, levemente adunco. Boquinha fina, olhos rasgados, sobrancelhas interrogativas. Cabelo loiro, cabelo liso. A pele branca e avermelhada. Quase uma boneca. Indiferente a esses detalhes, eu sempre fui. Carreguei as pálpebras de sombra. Estavam negras e meus olhos pareciam querer me dissecar sem piedade, queriam entender o que se passava dentro de mim mesma. Sem nenhuma observação, sem nenhum ponto de exclamação ou aviso prévio. Era o que me deixava dissolvida, era o que me possuía em sã inconsciência. Eu mergulhava nessa vácuo, nesse lago em que pareciam chover gotas de tinta o tempo inteiro, incessantemente e insistente (um pintor frustrado?). Fui puxada para baixo, para a mais aterradora profundeza com uma delicadeza sutil, num impulso prosaico. Ao passo em que descia, as flores amarelas, os girassóis, se desbotavam da roupa, flutuavam na água, as linhas do tecido que se desfaziam e na desordem do caos viajavam lentamente pelo imenso azul. Alguns pássaros voavam dentro do lago. Era difícil vê-los naquela escuridão. Alguns peixes ainda paravam, me observavam, mas logo percebiam a inutilidade desse ato e voltavam a vagar sem destino. Estava nua, afundando, cega. O ponto de luz, infinito, que nascia do centro da minha testa denunciava a minha origem intergaláctica, intertextual.
Era assim, todos os dias antes de sair de casa.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Conceito estético
sempre procuro desesperadamente,
no meu criadouro de gatos,
pelo de olhos mais cegos.