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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

operários

De costume, abri meus olhos à oito horas da manhã em ponto. De um lado, um cavalo, de outro um cobertor. Minha cabeça não doía, e me levantei para fazer algo não costumeiro, anti-rotineiro: café. Porque, normalmente, eu não gosto de café, mas misturar açúcar e achocolatado fez a coisa ficar menos pior. Fez a coisa ficar boa, repeti a dose três vezes no decorrer do dia. Depois, me sentei no sofá e senti algumas bocas me beijarem, algumas finas, doces bocas pousarem sobre todo o meu corpo e realizarem aquela breve e suave massagem que causa cócegas, milhões de cócegas. Não havia nada de mal ali, elas só começaram a deslizar e meus olhos fechados não suportaram a dor/alegria, nem o riso, nem as bocas, doces e vermelhas, sucelentas e sucintas. Havia escuro nos meus olhos fechados, a minha pele parecia se desfazer com os milhões de beijos arrastados. Eles se abriram e Hermes me esperava, sentado na sacada da varanda.

Tome cuidado, querido
Você pode, subitamente, se esvair nas alturas
Suas sandalhinhas de couro, benzidas no Olimpo
Talvez não suportem as alturas
O amante de Zeus deve permanecer vivo
Para me fazer cócegas todas as manhãs.
Aceita café?

Hermes tomou cuidado ao retirar seu cap
acete, alisou seus cachos. Castanhos cachos, feito os das estátuas. Alisou com uma delicadeza eficiente, os seus dedos parecendo pau entalhado, esculpido com esmero, dedos de homem perfeito. Seus joelhos que pareciam rochas, mármore. Sua pele dourada e escurecida pelas longas viagens perto do sol. Se aproximou de mim, e suas vestes tinham um movimento tão especial, a túnica drapeada que se drapeava pelo corpo, denunciando cada músculo e cada parte daquele ser tão...

...Hermético, eu sei...

Tocou meu rosto e expirou o ar de seus pulmões tão profundamente que pequenos corações surgiram aos montes ao redor da sala. Logo, havia um unicórnio que se prostrou diante de Hermes, servindo-lhe de poltrona. Seus olhos se viraram para o chão, como seu corpo também se curvou. Jogou o capacete no chão e me disse, não, ele não simplesmente disse, ele suspirou leve e lentamente a sua voz máscula e gentil, sem algum cinismo, o doce olímpico

Como estou cansado daquela obra
Os engenheiros dizem que não
Puderam dar continuidade aos meus planos
Os outros arquitetos se enfureceram
Eu também
A Biblioteca Municipal é uma construção importante
Para a cidade
Destruí um andaime e dei um tapa
Em um dos engenheiros incompetentes
Peguei um táxi até aqui
Atrás de consolo

Queria dizer

Oh, querido, não fique assim
Beba um pouco de chá e se acalme
Ou deite-se na minha cama comigo,
Deixei que eu afague seus cachinhos
E amacie a sua pele
Ou corra até uma loja da Chanel
E mate uma vendedora,
Se esconda em um provador,
Fuja da polícia,
Pule no Rio Reno
Se desfaça com a humanidade

Mas não pude. Ele me agarrou, me abraçou e levantou vôo pela janela, deixou o unicórnio na minha sala, defecando sonhos, e me levou até perto do Sol, onde ele sempre ficava, me beijou, mas minha pele já derretia. Como um suco, ele sorveu todo o líquido resto da minha existência. Até que pudesse cair no chão e se metamorfosear em galinha d'angola das pernas de cobra.

Destrua, destrua
Absorva e destrua
Os pés não são para andar
O telefone grita
Minha mãe não para de me dar leite
Para, Para
Absorva e destrua
Destrua, destrua





segunda-feira, 22 de novembro de 2010

teenage whore

O dia que Jay me chamou pra passear pelo quarteirão vizinho, vislumbrei um pedaço de céu na sua camisa rasgada. Ela tinha aquelas correntes nas calças que há muito, foram usadas para prender escravos nas mais profundas masmorras dos castelos dos senhores do açúcar. Eu tinha um castelo parecido, mas sem escravo nenhum. Jay não tinha escravos em casa. Jay gostava mesmo era de se picar e, quando baixava o santo, dava de cozinhar. Eu não sabia cozinhar e a outra mulher muito menos. Ovos queimados. Achei tão digno o dia em que ela presenteou o namorado com um tabefe bem na cara quando ele disse
- Vem cá, benzinho. Cala essa boquinha e dê alguma utilidade a ela.
Porque pra ser mulherzinha, Jay não conseguia. Ainda mais do tipo que se inferiorizava a outra pessoa. Olha, Jay não era do tipo que se ajoelhava e pedia perdão - ela só machucava alguém quando estava certa de seus propósitos. Eu também nunca matei uma mosca. Eu não sou humana. Quero dizer, sou humana, sim. Eu e Jay pretendiamos nos encontrar com nosso pai num barco no céu. Havia retalhos das nossas infâncias que Jay não me perdoava por ter feito se perpetuarem. Como o medo dela de ratos. Ela odeia que as pessoas saibam dos seus medos. No dia mesmo em que apareceu com o cabelão longo e descolorido, todo branco, todo sem cor alguma, todo mundo achou um disparate. Ficaram chocados. Eu nem vou esconder que fiquei um pouco assustada pela ousadia, mas, depois, eu entendi e me empolguei. Jay não tinha medo de compartilhar seus sentimentos, nem um pouco. Menos os medos. Mas os seus prazeres e pensamentos, com
a maior satisfação. Ela falava de sexo com as mocinhas virgens e elas eram tão bobinhas, coitadas. Algumas ficavam deslumbradas, outras assustadas. Teve uma que escreveu um poema*.

Jay, Jay
minha querida amiga
você me mostrou
a beleza do útero
em flor
a víscera dilascerada
em dor e sacrifício
a vida sendo gerada

Jay, Jay
ame-me
ouça Beatles
ou se destrua,
sua vadia.

Eu sei que essa menina era fascinada por Jack Nicholson e que não podia ficar duas semanas sem assistir um filme em que o homem estivesse. Mas Jay gostava era de se picar, cozinhas quando estava louca, mas de beber uma cervejinha com os amigos. Tinha uma desilusão com artistas plásticos porque todos que conheceu era uns riquinhos de merda e, pela primeira vez, criou um preconceito só pra se sentir confortável. Ela ouvia Bikini Kill, Pavement e Aretha Franklin. De verdade, ela não tava nem aí pra o que falavam de Marlene Dietrich

- E porra de anjo azul nenhum

Ela ia por debaixo. Costurava por baixo. Se fazia por baixo. Descia aos últimos anais do inferno. Jay era assim com todos os seus amores. Eu falava pra ela se orientar. O máximo que ela fez foi começar a usar muitos poás. Gostava de Yayoi Kusama.

*é assim que me lembro dele

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

retalhos

Tinha aquele céu negro, mezzi estrelado. Tinha a sua cabeleira, as madeixas furtivas de fios de algodão, negra também. Mezzi cacheado, mezzi liso. Tinhas méias nos pés pra enfrentar o frio. A cidade estava mezzi congelada. Seus olhos não tinham brilho, nem brilho distante. Opacos e com uma vida diferente. Garantia felicidade o desapego des femmes. Decerto que os meninos haviam causado alguma bagunça, mas nada daquilo era motivo para o desapego. Mezzi deitada. Brincar com sentimentos de sentimento e roda. Meninos maus. Porém, ela mesma havia dito, ela você você tinha dito. Você tinha dito. Bebeu mezzi xícara de café. A camisa dela tinha a mancha do molho de qualquer coisa do almoço. Se era pra confundir que fosse da cabeça aos pés. 'Eu amo quantos forem eu amo amo todos simultanea. Mãos mezzi molhadas mezzi secas sujas. O almoço não lhe tinha gradado, aquele molho estava mezzi delicioso. Não tinha a paixão dos sentidos. mente'. Cabelos escorridos pela superfície. Sensível ao espelho à harmonia e à revelação, mezzi medrosa. As batatas mal lavadas e mal cortadas para cozinhar e o seu avental em chamas. Sutiã no chão, embolado. Maquiagem num olho borrada, outra mezzi degastada. A cama os lençóis da avó amassados colcha de retalhos de solteiro, mezzi casal mezzi par mezzi alma gêmea. A fumaça emanando do bastãozinho cigarro. Jogada e atirada, à deriva. A deriva que levava pelo mezzi do caminho até le coeur. Não tinha que reclamar dos meninos que também a. A luz do poste acesa e a reflexão sobre sua psiquê. Os cílios se prendiam e a guerra para separá-los. amavam simultaneamente. Todos. Simultaneamente. Mezzi amor mezzi paixão mezzi sexo. Insustentável a sua vida. Mais de um meio não faz um nem vários inteiros. Apenas mais mezzo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

possuo o tempo

estava sentado numa cadeira defronte ao ventilador observava quieto as bordas da janela à sua esquerda tinha o tempo enrolado entre suas dedos nas suas mãos abertas com as palmas apontando para o teto azul se de manhã ele não se preocupava com os cabelos à noite sua atenção era redobrada escolhia os seus sapatos com a maior severidade e as suas calças deviam ter um caimento perfeito de manhã ele gostava de beber leite e só leite à tarde quando sentia fome se servia com um pouco de sorvete no congelador cajá era o seu sabor preferido de manhã se ele saisse ele vestiria kiltse de manhã gostava de passear por um pequeno bem pequeno bosque perto da sua vizinhança aliás sua vizinha teresa tinha um jardim belissimo tinha certeza de que alguma daquelas flores ou ervas poderiam dar um bom chá mas a sua vizinha teresa não era do tipo sensível pra falar a verdade teresa a vizinha era até um pouco sensivel e quando estava de bom humor ela até conversava com suas flores e bebia chá porque admitamos hoje em dia em tempos de coca cola beber chá é quase um ritual mas ela tinha um trabalho ruim ela era essa secretária de uma grande empresa que tem escritórios em prédios altos e art decó às vezes ela não sabia se trabalhava no Chrysler Building ou no Cristo Redentor e apesar do que todos especulavam e fantasiavam ela não se sentia bem lá as pessoas eram frias uma objetividade de enjoar não que ela fosse um pouco fria também mas depois de se divorciar do seu marido após mais quinze anos de casamento nenhum filho e vários casos "paralelos" ela se sentia só só porque a vida dela girou em torno daquele casamento durante muito tempo e os amigos que ela tinha eram os amigos do marido e depois que ele saiu de sua vida eles foram juntos só ficaram a casa uma pensão mensal e aquele jardim maravilhoso para o qual ela já havia dedicado mais atenção quando fora mais feliz essa pensão dela até que era compreensível o marido a havia mal acostumado a uma vida sem trabalho ser dona de casa era sua ocupação e ele até a ajudou bastante a arrumar esse emprego que de qualquer forma pagava bem à noite ela não tinha para onde ir não saía só às vezes sozinha e às vezes à noite uma amiga sua bem de vez em quando a visitava em casa e depois do jantar essa amiga ia ajudá-la a limpar os pratos à noite depois do jantar e depois da louça lavada e guardada elas continuavam conversando e de vez em quando a amiga encostava a outra no balcão da cozinha e a beijava na boca isso causou um pouco de confusão primeiro depois era só carinho e só a demonstração de que o afeto existia e as visitas eram raras porque ela gostava de ficar em casa com o marido também porque o amava e porque não gostaria de se apegar e nem criar esperanças para algo que nunca aconteceria como as flores que a sua amiga plantava e que nunca cresciam às vezes por displiscência e outras ninguém sabe talvez a sua vida de escritora de programas televisivos fizesse com que seus dedos e suas mãos se habituassem ao labor da escrita e se tornassem impróprias à jardinagem como ela gostava de flores toda semana ela aparecia numa floricultura a poucas quadras do seu apartamento não só porque ela gostasse mas pelo fato de que nenhuma nascesse à tarde aos sábados e aos domingos ela e o marido e o seu pequeno filho iam à praia definitivamente a família inteira era tentada pela praia e ela até que já havia pensado em comprar uma casa de veraneio à beira da praia isso faria bem ao seu espírito eles já haviam experimentado férias na praia e foi uma experiência rejuvescedora quente e viva seus cabelos loiros ficaram mais claros e a sua pele havia adquirido um leve bronzeado que o filho menor não tivera a sorte de pegar o pequeno virara um camarão tinha nove anos de idade e não gostava de brincar de cowboy o far west não tinha nada de esplendoroso para ele gostava de lego e comia pudim de leite com o mesmo vigor de quando brincava no parque da escola com seus amiguinhos quando se tornou mais crescidinho era o menino mais bonito da sala e também um dos mais inteligentes o talento das mãos da mãe dele saíram do papel para o pincel não que ele fosse o garanhão mas as pessoas mais sensatas adoravam a sua amabilidade a sua doçura e os cabelos e a pele queimados pelo sol sua mãe havia feito uma boa escolha de manhã ele ia pra escola e sempre esquecia de escovar os cabelos algumas tardes fazia aula de desenho e em outras dever de casa em alguma tardes saia e nas noites de sexta seus amigos o chamavam para sair tinha dezessete fumava e bebia escondido dos pais uns amigos o haviam introduzido na maconha mas gostava de chá quando se formou numa boa escola de belas artes ele se envolveu com projetos de amigos transitava pelas artes plásticas pela música e pelo teatro um pouco pela moda digamos andava por uns jardins porque achava jardins lugares divinos um pequeno santuário da natureza em cada casa por isso se mudou para a casa ao lado da antiga amiga da sua mãe que lembrava visitar quando era pequeno por causa do seu jardim belissimo que podia observar de manhã e as flores e ervas poderiam dar em chás
havia aquele homem deitado na cama e com um livro nas mãos e com o tempo nos olhos andou em sua direção beijou o seu nariz e depois a sua boca ele tinha cabelos castanhos e mais belos cachos que já vira em toda a sua vida ali havia o seu amor desceu as escadas pegou uma faca abriu a geladeira e cortou alguns tomates trouxe-os para cima e sentou ao lado do seu homem ele pousou o livro ao lado sem deixá-lo ver o que fazia o homem sentado com tomates nas mãos sentiu algo macio descer a sua testa parecia papel deslizar sobre seu nariz ele sentiu o cheiro do cravo e sentiu as suas pétalas sentiu os lábios molhados na sua nuca e os braços que os enlaçava

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Girassol


eu invejo aquela menina que dança ali ao lado. ela veste amplas saias que comportam uma grande delicadeza. forte. porque ela consegue se mover e seus movimentos de fêmea são sutis, seus olhares não são febris, mas são sedutores. é algo que se passa de mãe para filha, sem se falar nada, sem se pronunciar uma palavra, ou se fazer um gesto que algo se subentenda - é um segredo materno partilhado logo no útero, discreto, durante toda a gestação.
a menina baila com seu parceiro, com seu homem e ele, encantado, não percebe nem um pouco de toda a magia bruxa feitiço que a fêmea oculta e guarda. não compreende a intimidade que ela possui com o próprio corpo e com os seus rosados seios que, antes de alimentarem o seu fruto uterino, saciam a sede do homem por amor. as suas pernas, que ele segura com alguma rudez, são muito lisas, as linhas que a contornam são perfeitamente suaves, e o movimento de esticar e encaixar os dedos nas suas sandálias, pé por pé, ela o faz com profunda sensualidade. e, deslizando as mãos para cima, encontram-se as coxas, carne sobre ossos, que deixam fartas as mão do macho que as possuem. entre elas, está a flor puramente fêmea, o desejo e a sensualidade, receptiva, exalando o perfume para que a polinizem. o pequeno segredo de toda mulher. e, adentrando o seu estilete vem o vulcão, o senhor geofísico, másculo em toda a imponência, cuspindo e depositando, delicada e explosivamente, a sua lava, o seu magma terrestre, a pressão de todo o seu corpo e o acúmulo do seu amor no interior daqueles encharcados ovários.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Chatice

Chega uma hora do dia, e ela pensa se não seria melhor se tivesse passado a tarde no livro e no chá. Ao invés disso, se deitou no tapete da sala, se rodeou de revistas e tentou fazer o melhor que podia de si. A cara frustrada e o folhear das páginas, encostada na parede. Vendo de fora, seria bem engraçado. Aliás, só percebeu que aquilo tinha graça perto da hora de dormir. Seguiu adiante. Perdeu um pouco a cabeça e a aula de piano também, que já a chateava imensamente. Se a gente for contar que ela estava achando tudo a maior chateação, não deveria haver nada melhor no mundo do que se chatear. Chata, é o que ela é. Não é engraçada, mas tem um bom senso de humor. É sensível. É meio crítica e tem idéias vanguardistas. Os amigos, sem a compreender, desdenhavam, em todo o seu complexo ignorante, das doidices que ela fazia e do que gostava. Alguém tem que entender que há mais coisas que o lugar-comum, pensava e clamava ao mundo.
No fim das contas, o que ela percebe é que precisa é de um amor, de um amante. Um amante que a entenda, que a compreenda e dê ouvidos à sua boca grande e à língua pequena. É daquela gente que precisa de outra gente que queira saber sobre seus sentimentos, até porque ela também é assim, e é exigente: quer que os outros também sejam desse modo. Não é egoísmo, é uma necessidade de gentileza, de delicadeza. Delicadeza essa que ela levava até como filosofia de vida. Era puta e era delicada. Era irônica e era delicada. Era mulher delicada, de mãos delicadas, e toda essa delicadeza só conduzia à fragilidade do seu coraçãozinho. Pobrezinha, só precisa de alguém que se interesse em escutar seus pensamentos. Alguém dê ouvidos à sua boca grande, à sua língua pequena e às suas teorias de madrugada!
Só não te amo, porque é tarde demais.